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A Prioridade da Evangelização na Tarefa Missionária da Igreja
Valdir Raul Steuernagel



INTRODUÇÃO

A RESPONSABILIDADE SOCIAL DA IGREJA
Samuel Escobar

INTRODUÇÃO


Representa sintoma de maturidade cristã o fato de um Congresso de Evangelização incluir em sua agenda o tema da responsabilidade social da Igreja. Isso revela uma salutar mudança de atitude dentro das fileiras evangélicas. Trata-se de uma inadiável tomada de consciência, se é que vamos verdadeiramente cumprir nossa missão, com a comissão do Senhor, nestas terras convulsionadas pela fome, a explosão demográfica, as flagrantes injustiças sociais, a corrupção administrativa e a violência em suas inúmeras formas. O tema é vasto e múltiplas são suas facetas, mas devemos limitar-nos devido ao tempo de que dispomos e à natureza deste Congresso. Em conseqüência, fazem-se necessários dois esclarecimentos quanto a presente tese.

Em primeiro lugar, devemos fazer profissão de fé evangélica e bíblica. O autor deseja destacar que trabalha dentro dum movimento interdenominacional, que sustenta uma base de fé que inclui as doutrinas fundamentais da fé evangélica. Até o presente tem havido na América Latina a tendência de identificar a preocupação pelos problemas sociais com o liberalismo teológico, ou com um arrefecimento quanto a tarefa evangelizadora. Devemos de uma vez para sempre acabar com esta lamentável confusão. Existe base suficiente na história da igreja e nos ensinamentos da Palavra de Deus para afirmar categoricamente que a preocupação pelo aspecto social do testemunho evangélico no mundo não é um abandono das verdades fundamentais do Evangelho; pelo contrário, é levar às suas últimas conseqüências os ensinos a respeito de Deus, de Jesus Cristo, do homem e do mundo, que formam a base desse Evangelho. Tentaremos desenvolver essa tese no presente trabalho.

Em segundo lugar, temo-nos proposto apresentar o tema dentro do contexto da evangelização, e com ela relacionado. Devido a isso, só poderemos esboçar alguns problemas e aspectos fundamentais. Apesar disso, é importante ressaltar que entre os evangélicos existe um mal-entendido que contrapõe evangelização e ação social, como se uma excluísse a outra. Sustentamos que uma evangelização que não toma conhecimento dos problemas sociais e que não anuncia a salvação e a soberania de Cristo dentro do contexto no qual vivem os que ouvem, é uma evangelização defeituosa, que trai o ensino bíblico e não segue o modelo proposto por Cristo, que envia o evangelista.

 

I – BREVE REFERÊNCIA HISTÓRICA

O descuido dos evangélicos para com o tema da responsabilidade social explica-se de razões históricas. A maioria de nossas igrejas provém de missões surgidas no mundo anglo-saxão a partir do século passado, com um apreciável incremento a partir do fim da Primeira Guerra Mundial. Em alguns casos a Teologia, ou melhor, a mentalidade pietista destas missões levou à concepção da vida cristã como separada do mundo. A hostilidade do ambiente católico ou semi-pagão tornou mais aguda esta “separação”. Desta maneira vários aspectos da vida dos crentes ficaram desvinculados da sua fé. Por outro lado, a rejeição do mundo significou uma separação em relação a aspectos importantes da cultura do país deles.

Porém, talvez o que mais afetou nossa atitude, foi a polêmica entre fundamentalismo e modernismo, a partir dos começos deste século, bem como a rejeição do fracassado “Evangelho Social”. Chegou-se a identificar toda a preocupação com os problemas sociais e políticos como tentativa de introduzir o “evangelho social”, e ao final atingiu-se o ponto em que se desculpou a falta de compaixão e de obediência como atitude de “defesa da fé”. Como Carl F.H. Henry já demonstrou, isso era uma corrupção da luta evangélica pela ortodoxia, um perigoso desvio do seu intento original. Basta uma citação para comprová-lo.

No último volume da famosa coleção de livros The Fundamentals – livros que desempenharam um papel muito importante na luta contra o modernismo – o Prof. Charles Erdman dizia: “Um verdadeiro evangelho da graça é inseparável dum Evangelho das boas obras. Não se podem divorciar as doutrinas cristãs dos deveres cristãos. Com a mesma clareza com que define a relação entre Cristo e o crente, o Novo Testamento define a relação entre o crente e os membros da sua família, os membros da sua família, os membros da comunidade e os concidadãos do seu país. Necessitamos, nos dias que correm, dar uma ênfase renovada aos ensinamentos sociais do Evangelho, e devemos fazê-lo nós, os que aceitamos a totalidade do Evangelho, e não deixar que estes ensinos sejam interpretados e aplicados somente por aqueles que negam o essencial do Cristianismo...”. E acrescentava mais adiante: “Existem aqueles que se sentem muito à vontade com o que consideram pregação ortodoxa, embora saibam muito bem que as suas riquezas provêm de negócios ilícitos e da opressão do povo. A suposta ortodoxia de tal pregação é evidentemente defeituosa em suas afirmações acerca dos ensinos sociais do Evangelho”. “Pode-se ser um bandido e um salteador social e ainda crer no nascimento virginal e na ressurreição de Jesus Cristo”. Essas são palavras escritas a lá por 1911, por um precursor do fundamentalismo bem compreendido.

Assim, pois, as razões históricas explicam o nosso descuido, mas impõem-se uma tomada de consciência e uma correção. Apesar disso, há outro sentido no qual uma olhadela na História nos será benéfica. No que concerne à dimensão social do testemunho cristão, tem havido um retrocesso paralelo ao crescimento das igrejas. Os observadores não evangélicos que procuram interpretar nossa presença na América Latina demonstram que os evangélicos inicialmente provocaram um impacto social. Estiveram, por exemplo, na vanguarda da reforma agrária na Bolívia; da atenção hospitalar em certas zonas como a região andina; da educação popular na Argentina, no Peru, no México e em Cuba; das libertações civis e em particulares da religiosa; da luta em favor do indígena e dos seus direitos, e de várias causas mais.

Por outro lado, certas missões tiveram um interesse definido no trabalho social, estabelecendo, por exemplo, colégios cuja fama e influência já fazem parte da tradição educacional de certos países. Deveríamos acautelar-nos da tentação de lançar a primeira pedra quando se trata de julgar essa tarefa precursora. Por outro lado ainda, pode-se observar que missões que não tinham interesse no aspecto social, acabaram estabelecendo instituições de serviço, esmagadas pela urgência dos problemas que enfrentavam. Poder-se-ia mesmo dizer às vezes até em missões muito conservadoras neste assunto, os missionários do inicio do século mostraram maior sensibilidade às necessidades. Aparentemente, é como se o crescimento das igrejas e denominações houvesse concentrado a atenção no mecanismo eclesiástico em si, cerrando os olhos às necessidades do mundo, calando a compaixão num típico processo de “aburguesamento”.

Outro aspecto do impacto social do Evangelho foi a ascensão na escala social. Observa-se em muitos casos que, começando nas camadas baixas da sociedade no transcurso de uma ou duas gerações, o Evangelho produziu certa mobilidade social ascendente. Assim é que o filho de pais evangélicos quase analfabetos pode chegar à Universidade graças à mudança que Cristo operou em seu pai quando ele se converteu. Até onde as igrejas levaram em conta essa realidade? O fato é que não se desenvolveu adequadamente o ensino do princípio “aquele a quem muito foi dado, muito lhe será exigido” na sua aplicação à responsabilidade social do cristão.

O momento especial que a América Latina vive é um momento de revolução, de rápidas mudanças sociais, de transformação. A pressão social das massas marginalizadas, que encontram seus intérpretes nos intelectuais e nos estudantes, não pode ser sufocada nem por todo o aparelhamento militar e policial dos nossos países. A agitação política encontra nela um campo fértil para todos os tipos de extremismos. As receitas econômicas ou sociais contidas no credo dos nossos irmãos anglo-saxões não funcionam nesta explosiva realidade. Esta hora nos toma de surpresa com perguntas para as quais não temos respostas para as perguntas de hoje, e nossos melhores jovens vão buscá-las em outros lugares. Embora seja uma caricatura, cremos que é muito eloqüente a síntese que um jovem evangélico fez da situação: “No passado nos diziam que não nos preocupássemos em mudar a sociedade, porque se trata é de mudar os homens. Os homens novos mudariam a sociedade. Mas quando os homens novos começaram a preocupar-se com mudar a sociedade, diz-se a eles que não se preocupem, que o mundo sempre andou mal, que nós esperamos novos céus e nova terra, e que este mundo está condenado à destruição. Para que tentar melhorá-lo? O mal é que aqueles que ensinam isso desfrutam muito tranqüilos de todas as vantagens que este mundo passageiro lhes oferece e as defendem com paixão quando elas parecem correr perigo.”

 

II – A MISSÃO DA IGREJA E O CONTEXTO SOCIAL

É fora de dúvida que vozes autorizadas destacarão neste Congresso os diferentes aspectos da missão evangelizadora da Igreja, sua urgência e suas conseqüências. Entretanto, arriscando-nos a despertar controvérsias e seguindo a teologia evangélica, devemos afirmar que a evangelização é uma das tarefas da Igreja, que não é única tarefa da Igreja, e que não termina com a proclamação. A compreensão da evangelização como tarefa central não nos deve levar a fechar os olhos às outras tarefas urgentes: o ensino de “todo o desígnio de Deus”, visando a que os crentes progridam na direção da “maturidade em Cristo”; o culto corporativo como expressão da comunhão em Cristo; o serviço mútuo; e o cultivo daquele tipo de relação que faz a comunidade cristã uma expressão visível da ação do espírito nas vidas dos homens. Quer dizer: Marturia, Koinonia e Diaconia. A Igreja é mais que uma proclamadora esperta na comunicação de conteúdos mentais: é a expressão visível da verdade que proclama.

Um dos trabalhos mais valiosos do Congresso de Evangelização de Berlim destacou precisamente esta importante vinculação entre a vida da Igreja e a evangelização. “No Novo Testamento a evangelização não parece haver sido jamais uma questão discutida”. Quer dizer, não se encontram os apóstolos instando, exortando, repreendendo, planejando e organizando programas evangelísticos.

Na igreja apostólica a evangelização era algo que se considerava ponto pacífico, e funcionava sem técnicas nem programas especiais. Simplesmente acontecia... “Surgindo sem esforço da comunidade dos crentes, como a luz surge do sol, era automática, espontânea, contínua, contagiosa... São Paulo não exortava repetidamente as suas igrejas a unirem esforços para a propagação da fé, e como deveriam praticá-la e guardá-la...”. Salta aos olhos a artificialidade de ensinar técnicas de comunicação da mensagem desvinculadas dessa ênfase primeiramente na vida do crente e no testemunho total da comunidade cristã não se dá no ar, dá-se no mundo, em bairros concretos, de cidades concretas, de sociedades concretas. Dá-se, não a homens abstratos, e sim a homens de carne e osso, que vivem dentro de determinadas estruturas sociais, que sofrem, gozam, iludem-se e se desiludem, lutam e esperam.

No momento que estudamos o Novo Testamento à luz do seu contexto social, percebemos a forma como os autores apostólicos estão perfeitamente conscientes do mundo em que vivem e são bastante exatos no seu ensino sobre a maneira de viver a fé dentro das realidades e das instituições desse mundo. As passagens didáticas do Novo Testamento, quando não se ocupam da exposição teológica, ocupam-se em grande medida das obrigações e relações sociais dos crentes. Dedicam muito menos atenção, por exemplo, aos deveres religiosos ou ao exercício da piedade. Assim é que, movendo-nos em torno do tema da evangelização, podemos ao mesmo tempo examinar as normas para a realização da nossa responsabilidade social. Nossa norma é Cristo, que é também o nosso Evangelho, o poder e a sabedoria de Deus para nós, aquele que por seu espírito mora em nós aqui e agora, neste agitado 1969 na América Latina.

 

III – O CAMINHO DA ENCARNAÇÃO

“Assim como o Pai me enviou, Eu também vos envio”. Comentando a aplicação deste versículo, nos estudos bíblicos do Congresso de Berlim, disse o pastor John Stott: “Atrevo-me a garantir que embora estas palavras representem a forma mais simples da Grande Comissão, elas são ao mesmo tempo as que exprimem maior profundidade, as que nos interpelam mais poderosamente e também, por desgraça, as mais esquecidas. Nestas palavras Jesus nos deu, não somente um mandato de evangelizar (“O Pai me enviou, Eu vos envio”), senão também uma norma de evangelização... (“Assim como o Pai me enviou, Eu também vos envio”). A missão da igreja no mundo é ser como Cristo em tudo. Jesus Cristo foi o primeiro missionário e toda a nossa missão deriva Dele”.

Esta é a maravilhosa verdade da encarnação. Deus se fez homem. O verbo se fez carne e habitou entre nós. Jesus não cumpriu sua missão de longe. Vemo-lo como um menino que nasce e cresce. Como um homem que vive as vicissitudes de membro de uma classe social desfavorecida, num país colonizado e explorado. Não se trata de um deus disfarçado para fazer-nos pensar que é homem. O próprio João, que dá ênfase à sua deidade, nos descreve a realidade da sua humanidade. Não seria possível sua tarefa redentora sem essa identificação, este viver como homem no meio dos homens. Amigo de publicanos e pecadores, recebe-os, come com eles, sem tentar defender-se das conseqüentes acusações. Este é o Senhor que nos envia. E é ASSIM que Ele nos envia.

Enviados, por Ele, somos também homens no meio dos homens. Vivemos numa sociedade determinada, submetidos às leis humanas, às contingências e vicissitudes a que estão sujeitos todos os nossos concidadãos terrenos. E a verdade a qual somos obrigados a reconhecer é que temos cedido muitas vezes à tentação de nos separarmos da nossa sociedade e não nos identificarmos com ela. Não existe ainda mosteiro protestante na América Latina, mas a mentalidade de mosteiro, essa sim, existe. Há aqueles que sonham formar “bairros evangélicos”, ou sistemas de educação nos quais desde o berço até o túmulo o filho de crente seja protegido do mundo. Dizia o Pastor Stott: “Eu pessoalmente creio que o nosso fracasso em obedecer as implicações do mandado “assim... eu também envio” constitui a mais trágica fraqueza dos cristãos evangélicos no campo da evangelização hoje em dia. Nós não nos identificamos. Cremos tão fortemente na proclamação (e muito justamente), que tendemos a proclamar a nossa mensagem á distância. As vezes parecemos gente que dá conselhos sobre a segurança de praia a homens que estão se afogando. Não nos atiramos à água para salvá-los. Espanta-nos termos que nos molhar. Além do que, isso implica muitos perigos. Esquecemos que Jesus Cristo não enviou sua salvação do céu. Ele nos visitou com grande humildade”. Tentamos, portanto, esboçar algumas conseqüências do mandado do Senhor relacionadas com a nossa responsabilidade social.

1. A Igreja é um Grupo social. O fato de que é o povo de Deus que não impede a Igreja de ser um grupo composto de seres humanos, que adota formas de conduta social e estruturas de relação semelhantes àquelas do meio em que vive. As igrejas podem ser isso, converter-se em igrejas de brancos com teologia segregacionalista, ou igrejas de classe média com mentalidade e hábitos burgueses. Por isso também podem converter-se, dentro da sociedade, em grupos de pressão manipulados para fins políticos. Por isso ainda podem transformar-se em uma espécie de “quistos” estranhos ao corpo social em que vivem, difundindo uma cultura, formas de vestir-se ou de divertir-se estranhas ao seu meio ambiente. Esse é um perigo, precisamente para combatê-lo. É preciso aprender a distinguir entre o que é apenas o reflexo da realidade social e cultural. É exatamente a ênfase no que é essencial, na chamada e na missão da Igreja, que é corretivo contra o condicionamento sociológico, porém é necessário reconhecer que ele existe.

2. Identificação com o que é latino-americano. Pelas razões históricas freqüentemente mencionadas, nossas igrejas têm vivido dentro duma subcultura “anglo-saxonizada”. Com que freqüência não temos observado entre nossos líderes e pastores um total desconhecimento da literatura, do folclore e da história da América Latina! Observadores perspicazes já destacaram o fenômeno da imitação do missionário, que leva muitos a falarem com os mesmos defeitos lingüísticos que ele, ou a opinar sobre economia e política seguindo servilmente a opinião do missionário. Temos que aprender a ser homens do nosso povo e da nossa época. Não se trata aqui desse falso nacionalismo, o chauvinismo que utiliza a bandeira do que é nacional para encobrir ambições egoístas. Trata-se de tomar consciência de que Deus nos pôs aqui e agora.

Na evangelização, isso significa que percebemos que os homens e mulheres ouvem as nossas mensagens não tem obrigação de entender esses discursos copiados de Spurgeon, Moody e Meyer. Esses grandes pregadores foram grandes exatamente porque corresponderam á realidade do seu tempo. Copiá-los servilmente é desfigurá-los. Quem quer que tenha lido atentamente os livros de ilustrações fica surpreso pela abundância de referências a Lincoln, Franklin, Washington, ou aos Reis da Inglaterra.

Para o evangelizador, a pesquisa de nosso passado e de nossa cultura contemporânea é tarefa urgente, é responsabilidade social evangélica. Falando da aplicação desse princípio ao missionário, Eugene Nida declarou: “A identificação que se exige não é imitação, e sim uma participação efetiva como membro da sociedade. Para participar eficientemente não é necessário a herança cultural própria, o que é na verdade impossível, embora alguém se proponha a fazê-lo – e sim empregar esse cabedal em benefício de toda a comunidade na qual se integrou”. E isso nos leva a um nível mais profundo de identificação.

3. O Evangelho não é uma ideologia da classe média. Se observarmos atentamente a estrutura social latino-americana, notaremos imediatamente que há algumas camadas que nós não estamos alcançando com a mensagem de Jesus Cristo: A aristocracia detentora da propriedade das terras ou a alta burguesia industrial, as elites culturais (a “intelligentsia”), os operários organizados, amplos e determinados setores estudantis e as massas camponesas. Somos, ou nos tornamos rapidamente, igrejas da classe média.

Houve um momento na América Latina em que se pensou que as classes médias tinham um papel chave a desempenhar no futuro. O curso dos acontecimentos trouxe uma decepção nesse sentido. Por um lado, a classe média é um setor não muito grande da população: 13% na Bolívia, 15% no Brasil, 39,7% na Argentina, 31% no Uruguai. Por outro lado, ela optou por um caminho de dependência mental e estrutural em relação às oligarquias, a tal ponto que um observador, outrora (1955) entusiasta do papel da classe média, escrevesse menos de uma década depois (1964): “A classe média é cada vez menos um fator de mudança social e entra a fazer parte da vasta parasitologia latino-americana”. Serão outros grupos ou classes sociais que promoverão a mudança. E a esses precisamente, é que a mensagem do Evangelho não está chegando. Por quê?

Pregamos uma mensagem que convida os homens ao arrependimento e a nova vida em Cristo. Nossos sermões e folhetos pedem aos bêbados que deixem o álcool, aos ladrões e delinqüentes que deixem o mau caminho, aos filhos desobedientes que respeitem aos pais. Prometemos aos neuróticos que encontrarão paz espiritual e aos desequilibrados psíquicos que acharão a tranqüilidade. E o que diz a nossa mensagem aos exploradores de indígenas, aos capitalistas “tubarões”, aos políticos venais e corruptos, aos políticos sujos? Do que devem arrepender-se os “bons meninos” (isto é, os “moços ricos”) das nossas igrejas? Não é um pecado, ou a manifestação do pecado, essa indiferença cômoda diante do sofrimento das massas do nosso continente ou de certos setores esquecidos?

Entraram na moda “os almoços presidenciais” e as reuniões com autoridade. Os evangélicos alguma vez levantaram nessas reuniões uma voz profética? Não estaremos antes procurando grangear as riquezas e os privilégios de corações não arrependidos entre os poderosos, garantindo-lhes que o Evangelho produzirá operários que não façam greves, estudantes que cantem corinhos em vez de pichar paredes com dísticos de luta social, guardiãs da paz ao preço da injustiça? Não estranhemos, então, que aqueles corações sensíveis à dor do nosso povo, à miséria, à injustiça, ao invés de serem sacudidos pela mensagem revolucionária de Cristo, que muda o coração mais ímpio, saiam atrás dos agitadores de qualquer ideologia em moda. Não admitiremos então, que em certos países tantos jovens evangélicos se tenham tornado guerrilheiros e não queiram saber de mais nada com a igreja. Sobre quem cairá o sangue deles?

Mais um exemplo da nossa falta de presença e encarnação em toda a realidade latino-americana é a nossa atitude diante do problema da população. A fome e o sofrimento têm a ver com o pavoroso crescimento da população. Mas esta não é a única causa, para sermos honestos. É também a péssima distribuição da riqueza e a estrutura injusta. Muitos evangélicos se envolveram com entusiasmo nos programas de promoção do controle de natalidade como forma de trabalho social. Isso, em minha opinião, é louvável. Mas seria bom ver igual entusiasmo para combater as outras causas da fome. Nós não a vemos. Creio que a razão é simples. No controle da natalidade são “os de baixo” que são afetados. Se não gostam, não nos inquieta muito. No caso de distribuição injusta da riqueza ou das estruturas obsoletas, nossa ação ou nossa opinião incomodaria “aos de cima”.

Temos falado e escrito a respeito de João Huss, ou João Wiclife, precursores evangélicos da Reforma. Já percebemos até que ponto o trabalho evangélico desses homens esteve vinculado a esse sentimento nacional (o boêmio e o inglês) que lutava contra o imperialismo daqueles dias? Por que a mensagem deles deitou raízes entre as massas? É que não era um evangelho desencarnado.

Com tudo isso não queremos dizer que seja pecado pertencer à classe média. Queremos dizer que a mensagem de Cristo não pode ser reduzida ás preferências, conveniências e interesses da classe média. Nossa “encarnação” na totalidade da sociedade latino-americana nos levará a sentir o inconformismo dos estudantes, a ânsia dos camponeses e operários por justiça e pão, o anti-americanismo das elites cultas. Porque por todos estes Cristo também morreu, pois não podemos admitir que estejam “sociologicamente predestinados” a não ouvir o Evangelho.

4. O Evangelho não é um programa social e político. Não se trata, entenda-se bem, de que as igrejas evangélicas tenham que propor um programa político à América Latina. Essa não é a sua missão. A mensagem de salvação deve chegar a cada um em sua circunstância, demonstrando como o pecado afeta todas as esferas da vida e as relações entre os homens. A mensagem também deve demonstrar como a entrega pessoal a Jesus Cristo transforma a vida de cada um, de modo que os efeitos da conversão sejam visíveis na sociedade em que o crente vive. De que é que Jesus Cristo quer me salvar, e para quê? Isto, sim, os evangélicos têm que pregar bem claramente, em bom vernáculo, em linguagem acessível, não na gíria própria de alguma seita esotérica.

João Batista, ao pregar (Lucas 3:8-14), exigia evidências do arrependimento antes do batismo: “Vivam de tal maneira que se veja claramente que vocês mudaram de atitude...” (Versão Popular), e em seguida era muito concreto quanto ao que significava a essa mudança de atitude. Quando procurado por militares interessados, disse-lhes algo que soaria muito apropriado ao nosso tempo: “Não tirem nada de ninguém, nem por ameaças nem acusando-o do que não fez; e conformem-se com o seu soldo” (Versão Popular). O Senhor Jesus foi igualmente concreto em suas exigências àqueles a quem chamava. As epístolas também são notavelmente claras. Tiago é muito preciso em suas indicações àquela incipiente classe média à qual dirigiu sua epístola.

Como parecem abstratas às vezes as nossas versões do Evangelho! Vi recentemente despertar a consciência social e política em algumas missionárias argentinas que foram ao norte do seu país viver no meio dos indígenas para levar-lhes a mensagem de Cristo. Não se dedicaram a fazer política no sentido tradicional do termo, mas tiveram que revisar os seus conhecimentos de educação cívica, falar valentemente com as autoridades, pregar contra a discriminação e começar uma pequena indústria. Minha própria congregação – outrora tipicamente impermeável à dimensão social do Evangelho – vibrou ao ouvir o que está acontecendo. Creio que também só agora alguns entenderam o porquê do trabalho social dos missionários britânicos que desde algum tempo agem numa zona próxima, o porquê de não ser possível chegar lá, abrir um local de cultos e pôr-se a recitar textos de acordo com as melhores regras da Hermenêutica.

Assim, pois, se a igreja levar até as últimas conseqüências o exemplo de Cristo na encarnação, no mínimo acabará tomando consciência do contexto social e político dentro do qual se movimentam os que ouvem a mensagem, pregará uma mensagem pertinente, deixará de ser um clube de gente da classe média que se sente muito feliz, deixará de ser um mosteiro ou um quisto cultural estrangeirado.

 

IV – O CAMINHO DA CRUZ: ENTREGA E SERVIÇO

“O próprio Filho do homem não veio ser servido, mas para servir e dar a sua vida em resgate por muitos” (Marcos 10:45). O amor de Deus não se conhece somente na encarnação de Cristo, em sua vinda para morar entre os homens. Sua obra aqui termina na cruz, no sacrifício expiatório para a salvação do homem pecador. Isto também é parte central do Evangelho. O caminho da exaltação a Cristo o domínio final passa pela humilhação e pelo sacrifício da cruz. Há um caminho semelhante para o discípulo de Cristo, para o enviado como Cristo. “Nisto conhecemos o amor, em que Cristo deu sua vida por nós; e devemos dar nossa vida pelos irmãos. Ora, aquele que possuir recursos deste mundo e vir a seu irmão padecer necessidade e fechar-lhe o seu coração, como pode permanecer nele o amor de Deus?” (I João 3:16-17). Stott comenta sobre isto em Berlim: “É evidente que a morte vicária de Jesus em seu significado expiatório foi algo absoluto e único. Entretanto, há mais sentido secundário no qual nós também somos convidados a morrer, não da mesma gente à qual desejamos servir. Enquanto o grão não morrer, não dá fruto... Temos que estar dispostos a oferecer nossas vidas aos demais, não só no martírio, mas também num serviço de sacrifício e negação...”.

É interessante que o contexto no qual Jesus define sua vida como uma missão de serviço que culmina na morte, seja o mesmo tempo um contexto relacionado com o poder e o prestígio. Alguns vêem a Igreja como uma potência política ou querem transformá-la nisso. É uma tentação antiga e devemos nos acautelar contra ela.

1. Poder político e espírito de serviço. O Reino de Cristo não é deste mundo. Não é um reino que se imponha aos homens tão logo tenha conquistado o poder político. A América Latina tem uma triste história de alianças entre o político e a religião, e há muitos que suspeitam que por trás do esquerdismo dos “novos católicos” está, mais uma vez, a velha tentação de promover a revolução para depois cavalgá-la. Os evangélicos estão caindo na mesma tentação por duas vias diferentes.

Primeiro, a via de extremismo de esquerda, que em certos setores do protestantismo latino-americano diz que hoje já não é necessário pregar o Evangelho, que o mais importante é fazer a revolução de esquerda, que essa é à forma de ser cristão hoje. Por trás desta posição há erros teológicos e políticos de fundo. Segundo, erram também os que afirmam que enquanto forem uma pequena minoria, os evangélicos nada podem fazer no campo social ou político, e que por isso agora é preciso dedicar-se a pregar, até que sejamos uma maioria que se imponha – isto é, que imponha uma “política evangélica” – pelo peso dos votos. Em ambos os casos procuram-se simplesmente o acesso ao poder e não se concebe uma via de ação que não suponha primeiro a tomada do poder.

Essa mesma tentação tem levado às vezes os evangélicos a “fazer o jogo” da direita oligárquica. Em certos países a Igreja de Roma tem setores esquerdistas muito ativos. Isso os está pondo em aberta oposição a regimes conservadores, e em alguns casos chegaram ao rompimento ostensivo. Tais regimes, em seu desejo de provar que são “ocidentais e cristãos”, começam então a cortejar os evangélicos, a mandar generais ou funcionários aos cultos, a oferecer vantagens aos protestantes outrora desprezados. Os evangélicos não deveriam deixar-se manobrar em prestar-se a jogos políticos desse tipo. Mas às vezes se deixaram tomar de alegria transbordante à vista de tais “aberturas”. Outras vezes é esse anticomunismo infantil que leva a fechar os olhos diante da miséria e da injustiça, e a suspeitar de todo aquele que fala de mudanças.

O caminho de Cristo é o do serviço. Sua morte nos leva também, aos que cremos Nele, a morrer. À morte e à vida nova (Romanos 6:1-14; Colossenses 2:9-23; Gálatas 2:20). Essa vida nova significa uma atitude nova diante de Deus e do próximo, uma nova maneira de ver as coisas. O homem salvo já começou a viver uma vida nova, que não é mais a de um “homem lobo do homem”, egoísta e interessado em sua própria felicidade, seu próprio bem estar, sua própria “salvação”. Temos que nos aprofundar mais na dimensão total de mudança que Cristo opera.

Nosso Evangelho será falso se der entender que após o encontro com Cristo e a conversão, o proprietário pode continuar fazendo o que bem entende com a sua propriedade, o capitalista deixa de fumar ou de praticar o adultério, mas continuar explorando os seus operários, o policial distribuir Novos Testamentos no quartel, mas continuar torturando os presos para arrancar confissões, e os jovens revoltosos apenas se transformam em rapazes, que terminam logo seus estudos para poder casar-se e dar seu dízimo, a fim de que a Igreja possa edificar um templo luxuoso com ar condicionado, tapetes e cortinas de veludo. Cristo não veio pregar uma revolução armada para despedaçar as estruturas injustas. Mas esperava dos seus discípulos uma conduta revolucionária caracterizada pelo espírito de serviço e de sacrifício. Tal coisa só é possível se o homem permitir que Deus o transforme, se ele se converter. Não convertamos o Evangelho em apenas um método para “ser feliz e viver sem preocupações”.

2. As múltiplas oportunidades de serviço. As tremendas necessidades de toda ordem em nossos países apresentam múltiplas oportunidades de serviço. Nos campos da educação, saúde, atenção a setores marginalizados, ajuda técnica e mil outras coisas, os estados latino-americanos não estão em condições de atender adequadamente às crescentes exigências da população. Ao nível pessoal ou de grupo, basta simplesmente dar uma olhadela em derredor para vê-lo, em cada país e em cada sociedade.

O serviço no sentido cristão tem quase sempre caráter sacrificial. Não se trata de esperar que nos sobre para dar. Trata-se de dar a própria vida, aquilo que é parte de nós. “Gastar-se” em termos paulinos. E trata-se de uma maneira inteligente de dar, de um serviço na medida das próprias possibilidades e necessidades. Já chegou a hora de que os evangélicos estudem cooperativamente as necessidades do seu país e depois façam um levantamento dos seus recursos e de como reuni-los para melhor servir. Este caráter sacrificial e inteligente do serviço é parte da maturidade espiritual à qual devemos aspirar.

As novas gerações evangélicas devem ser reputadas em suas igrejas e entregar-se a uma vida de serviço, a recordar que muito se lhes exigirá. Isso significa que uma parte importante da “preparação” e de “treinamento” da nossa mocidade para a vida cristã será conhecer as necessidades de seu próprio país, às quais os jovens podem acudir com o apoio de suas congregações, ou fazer uma escolha adequada do lugar onde exercerão sua profissão ou ofício.

Nem sempre o serviço tem o caráter “assistencial” a que até aqui temos feito referência. Setores como o da informação, jornalismo, interpretação das notícias, atividade editorial, docência universitária, não tem sido adequadamente investigado pelos evangélicos como campos de serviço. Orientar-se só para carreiras que são economicamente vantajosas (atitude muito burguesa, por certo) tem impedido que se veja a contribuição criadora dos evangélicos em tais setores de atividade. Só um espírito de serviço pode orientar vocações em direção a essas tarefas.

3. Dimensão social do serviço. Há dois conceitos básicos que devem ser ventilados a esse respeito. Em primeiro lugar, o fato de que vivemos numa sociedade mais complexa, muito mais povoada e radicalmente diferente da sociedade em que viveram Jesus e os apóstolos, ou da do Antigo Testamento. Nossa interpretação da Escritura, então, tem de levar em conta essa diferença e entender o que significa a obediência à Palavra no contexto latino-americano. Isso quer dizer que hoje em dia “dar de comer ao faminto” pode significar não somente dar o um pão a um mendigo, mas também introduzir técnicas modernas de cultivo do trigo em uma comunidade camponesa dos Andes. Quer dizer que “dar um copo d’água” pode significar para um grupo de universitários evangélicos instalar um poço artesiano ou um sistema de irrigação em um povoado do sertão brasileiro. Isso quer dizer também que na Bíblia não se encontram respostas particulares para os complexos problemas duma sociedade industrial ou pré-industrial como nossa. Parte do serviço cristão pode ser precisamente investigar as possibilidades que a técnica e a ciência vão pondo à nossa disposição. Colocar os avanços técnicos ao alcance dos necessitados é também uma forma de serviço cristão, por que não?

Em segundo lugar, é fundamental entendermos que a sociedade é mais que a soma de indivíduos. É ingênuo afirmar que basta ter homens novos para ter uma sociedade nova. Verdade é que todo homem novo deve fazer quanto estiver ao seu alcance para que a mensagem transformadora de Cristo chegue a todos os concidadãos. Mas também é verdade que precisamente eles, os homens novos, às vezes necessitam transformar as estruturas da sociedade, a fim de que sejam menos injustas, a fim de que tornem menos fácil a maldade do homem para com o homem, a exploração. A luta contra a escravidão, por exemplo, na qual os evangélicos tiveram um papel destacado, teve, por um lado, a ação evangelizadora que transformou alguns comerciantes de escravos, levando-os a aceitar o ensino do princípio da igualdade entre os homens, segundo a Bíblia, mas inclui também, por outro lado, a ação política inteligente dum grupo evangélico no Parlamento britânico durante vinte anos.

O serviço cristão implica também, então, atividades cujo fim é influir sobre a condição e o comportamento do homem, estruturando seu meio ambiente. Estas vão desde o voto consciente do cidadão comum até a participação na ação social e política. A contribuição especificamente evangélica será o espírito de serviço com que se dá tal participação. A política latino-americana necessita de uma boa dose desse espírito. Quando as circunstâncias o exijam, a participação inteligente pode implicar também uma ação revolucionária na esfera política. Se essa palavra e essa idéia nos parecem repugnantes e surpreendentes, devemos perguntar: Que posição haveria tocado aos evangélicos nas guerras da nossa independência? Quem de nós haveria preferido o status quo colonial?

4. Serviço e Evangelização. O serviço não é evangelização. Os homens, quaisquer que seja sua classe social, condição econômica ou cor política, necessitam saber que Deus os ama e que Cristo lhes oferece o caminho de regresso a Deus. Ricos e pobres, capitalistas e proletários, militares e políticos necessitam ouvir a chamada ao arrependimento e a fé. O anúncio destas boas novas por meio da pregação, o testemunho pessoal, a literatura, a distribuição da Bíblia, etc., é algo que incumbe sempre, aqui e agora, a todo crente. Mas aquele que evangeliza tem uma vida diferente. É alguém que aprendeu a servir. É carta viva que mostra a aplicabilidade da mensagem que anuncia. Não podemos separar a proclamação do Evangelho da “demonstração” desse Evangelho. São diferentes, mas ambas são indispensáveis.

Quer dizer, o serviço cristão não é optativo, não é algo que podemos fazer se quisermos. É a marca da nova vida. “Pelos seus frutos os conhecereis”. “Se me amais, guardareis meus mandamentos.” George B. Duncan disse a esse respeito, em Berlim: “...três canais de comunicação estão abertos ao evangelho: ‘o que temos ouvido’, sugere a comunicação audível, ‘o que temos visto’, sugere a comunicação visível; ‘o que contemplamos e as nossas mãos apalparam, com respeito ao Verbo da vida’, sugere o que poderíamos chamar de comunicação tangível do Evangelho.”

Se somos de Cristo, temos o espírito de serviço de Cristo, já deixamos de ser egoístas, “lobos do homem”. Nossa nova atitude é a evidência da nossa experiência espiritual. Por esse motivo, torna-se ociosa a discussão sobre se devemos evangelizar ou promover a ação social. Ambas as coisas vão unidas. São inseparáveis. Uma sem a outra é evidência de falha na vida cristã. Por isto torna-se ocioso e até “jesuítico”, tentar justificar nossos empreendimentos de serviço ao próximo alegando que “eles nos servem” para a evangelização. Deus está igualmente interessado em nosso serviço e em nossa tarefa evangelizadora. Não tenhamos peso na consciência por causa das nossas escolas e nossos hospitais, centros de assistência, centros de estudos, etc. Se evangelizamos neles, é em boa hora! Mas não os utilizemos como meios de coação para implantar o Evangelho. Não é necessário. Eles são, por si sós, expressão de maturidade cristã.

Atividade política e evangelização, ação social e evangelização, serviço à comunidade e evangelização. Isto é sintoma de maturidade e evidência da nova vida. É o símbolo da morte para a velha vida e evidência da nova. Tudo quanto custam em esforço, sacrifício, desprezo, perseguição por causa da justiça, demonstra que estamos crucificados com Cristo e que não somos apenas versados em crucificação.

 

V – A RESSURREIÇÃO E A ESPERANÇA CRISTÃ

Mas então se nos depara a pergunta acerca do sentido de se lutar por estabelecer um mundo melhor, se sabemos que este mundo está condenado à destruição. Com o Novo Testamento afirmamos inequivocamente que esperamos novos céus e nova terra, que o Reino de Deus não é uma utopia que o homem construirá pelo seu próprio esforço. Cristo é que o estabelecerá ao voltar triunfante. Porém este Reino não é apenas algo futuro. A vitória de Cristo já foi ganha na ressurreição e na cruz, o triunfo sobre a morte. A manifestação final e total da Soberania de Cristo e o Reino de Deus é o que anelamos e esperamos. “Venha o teu Reino”. Porém àqueles que confessam a nossa esperança desta maneira já somos testemunhas da ação do seu poder em nossas vidas, já ressuscitamos com Cristo, e já anelamos cada dia pela vontade de Deus, como esperamos que um dia ela seja feita na terra inteira, em toda a criação redimida (I Coríntios 15; Efésios 1:15-2:10; Colossenses 3; I Pedro 1:3-5).

Não se pode negar que a esperança escatológica enche as páginas do Novo Testamento. Não se pode negar tampouco que as exortações a uma conduta social diferente e elevada nas relações com o próximo sejam também uma constante no Novo Testamento. Só podemos entender a dinâmica da esperança cristã se relacionarmos esses dois elementos. A obediência às exigências éticas do Novo Testamento no terreno individual e no social, é, forçosamente, sal e luz que faz um mundo menos mau. Já vimos que essa obediência é imperativa; não optativa. Cristo é o Senhor; não se pode tê-lo apenas como Salvador. Mas, apesar de tudo, não cremos que a evangelização do mundo ou o nosso testemunho cristão venham estabelecer o Reino de Deus sobre a terra. Este é Cristo quem o estabelecerá no devido tempo. A garantia desse triunfo final é a vitória da ressurreição, na qual cremos, porque, do contrário, seríamos os mais miseráveis de todos os homens. As conseqüências disso para a nossa responsabilidade social são decisivas.

1. A dinâmica da nova vida. É o poder de Deus manifestado na ressurreição que nos dá a nova vida que já descrevemos como vida de serviço e obediência a Cristo. É obra de Deus, não humana (Romanos 8:11). Só Deus pode cumprir em nós, pelo seu Espírito, as tremendas exigências do discipulado. É esse poder de Deus que nos faz elevarmos acima de todo condicionamento sociológico. É esse poder de Deus que nos faz percorrer a segunda milha. Só na contínua dependência Dele é que podemos viver no mundo sem ser do mundo. É a falta de fé que leva ao monasticismo e a anti-bíblica separação do mundo. É o temor de que o mundo nos manche. O resultado disso tem sido uma espiritualidade desencarnada, que só é possível na invernada protegida do gueto evangélico. Se a vida espiritual não agüenta o impacto das tentações às quais o político é submetido, onde está o poder da ressurreição? É fácil dogmatizar a respeito da maldade dos políticos, quando não se fez uma tentativa de ser bom ali, no meio deles. Essa retirada do mundo não seria uma desvirilização da vida cristã?

2. A inconseqüência evangélica. Houve momentos em que os crentes sentiram com maior agudeza a iminência da vinda de Cristo. Talvez momentos de crise no terreno social e político, ou de frieza espiritual e apostasia na igreja. A sinceridade deste sentido de iminência da vinda se nota na conduta diante das realidades materiais. Aqueles crentes se desfizeram de suas possessões duma forma às vezes dramática. Destaquemos sua sinceridade por que ela é um contraste com a atitude daquele que usa a idéia da vinda do Senhor como desculpa para não cumprir as exigências do Evangelho. Quando pessoas que vivem bem, que constroem sólidos templos para que durem séculos, e que atendem com dedicação a seus negócios, falam da esperança cristã ao pobre que geme, ao político que luta por mudanças sociais, ou ao estudante atraído pela luta social, há nisso uma conseqüência. Chegados a esse ponto, creio que muitas vezes cedemos à tentação de converter o Evangelho no “ópio do povo”. Isso é a mesma coisa que dar um folheto de evangelização a um faminto e protestar porque ele come o folhetinho.

O corretivo bíblico dessa atitude, temô-lo no claro ensino do apóstolo Paulo, de que crer na vinda do Senhor em sua iminência não leva a nadar desordenadamente, e sim a cumprir com as exigências do Evangelho (II Tessalonicenses 3.6-15). “Que todos conheçam vocês como pessoas bondosas. O Senhor está perto” (Filipenses 4.5 – Versão Popular).

3. Presença do Reino e espera do Reino. Nós, os cidadãos do céu, vivemos dentro de reinos terrenais, com suas estruturas sociais nas quais muitas vezes percebemos claramente a influência satânica. No entanto, proclamamos que Cristo é o Senhor; ainda que por agora só alguns o reconheçam como tal, sua soberania é um fato que logo todos verão. Este mesmo Senhor nos ensina a respeitar as autoridades terrenas dos reinos em que vivemos e a demonstrar, em nossa conduta para com eles, quem é o nosso verdadeiro Senhor. Aceitamos o Estado e a estrutura social como parte da provisão de Deus para que o homem ainda possa viver sobre a terra enquanto dura o tempo “da paciência de Deus”. Mas nossa aceitação não é incondicional, porque se César pedir o que é de Deus, não lho daremos. Saberemos também que é Deus quem tira e põe reis e governantes, e que toda esta estrutura é provisória.

O que é definitivo virá com Cristo no fim, mas já está presente aqui, justamente com a presença daqueles que são Dele. O Estado, que é provisório, castiga aquele que pratica o mal (Romanos 13.4). O cidadão do reino de Deus não paga o mal com o mal (Romanos 12.17). Isso, por exemplo, unido a todos os deveres éticos, pessoais e sociais que o Novo Testamento ensina, é um sinal de que há um Reino diferente a caminho. Os que esperam esse Reino o demonstram com sua conduta. O crente não espera estabelecer o Reino de Deus, espera a manifestação final desse Reino, que já é uma realidade. Precisamente por isso sua conduta é tão diferente, tão “revolucionária”.

“O cristão deve participar da atividade social e da política para ter uma influência no mundo, não com a esperança de fazer deste um paraíso, e sim para fazê-lo simplesmente mais tolerável. Não para diminuir a oposição entre este mundo e o Reino de Deus, e sim para modificar, simplesmente, a oposição entre a desordem deste mundo e a ordem de preservação de Deus, e sim para que o Evangelho possa ser proclamado, para que todos os homens ouçam realmente as boas novas”.

4. Escatologia e abertura para o futuro. A esperança da Igreja não está posta em nenhum reino ou ordem temporal de coisas, nem sequer naqueles que os cristãos contribuem para estabelecer e melhorar. Por isto, a Igreja não acorrenta seu destino ao destino dum sistema político, social ou econômico. Não há um sistema social que possa chamar de “cristão” ou considerar como expressão de Cristianismo. Os sistemas são adequados, em grau maior ou menor, às diferentes realidades, e funcionam de acordo com as circunstâncias e a história e estrutura de cada país. Nós não cremos que a forma evangélica de organizar a sociedade sejam o capitalismo e a chamada democracia representativa.

A América Latina está atravessando um momento de crise e revalorização dos ideais democráticos liberais. Estamos sentindo o peso do abuso dos países ricos no mercado internacional dos nossos produtos. Vemos como as nossas escassas divisas se gastam numa insulsa corrida armamentista que simplesmente acompanha as vicissitudes da guerra fria internacional. Já é ligar comum o fracasso da Aliança para o Progresso e a deterioração das relações interamericanas. Todo o poder dos governos militares não consegue impedir a pressão popular capitalizada pelo terrorismo organizado. A qual aspecto do status quo ou do passado pode agarrar-se o evangélico que reflete sobre o aspecto político e quer dar sua contribuição? Ser conservador, de que? Ser revolucionário, em que direção?

O autor quer expressar aqui sua opinião de que os evangélicos latino-americanos estão mais bem capacitados que ninguém para julgar com objetividade o nosso presente político, se tomarem consciência das conseqüências da sua fé. Sem agarrar-se idolatricamente nem ao conservadorismo nem a qualquer revolução, o cristão pode contribuir para determinar com clareza o que deve ser mudado e o que é preciso conservar. Pois a América Latina deve procurar seu próprio caminho com realismo e dignidade.

A presença evangélica também em tarefas de serviço efetivo pode servir de corretivo à verborragia e à demagogia da política latino-americana. Os evangélicos deveriam explorar as possibilidades da sua presença em projetos como os de cooperação popular, mobilização de estudantes para o serviço no campo, serviço de trabalho voluntário em áreas de emergência, organização de cooperativas e similares, que vários dos nossos governos estão iniciando. Que melhor possibilidade de evangelização que a convivência no serviço?

Porque o seu serviço é obediência a Deus, porque em sua vida de serviço ele tem o auxílio do Espírito Santo, e porque espera com gozo o Reino de Deus em sua manifestação final, sem temor do futuro dentro destas estruturas provisórias, o evangélico pode colaborar com entusiasmo nas tarefas para melhorar o seu país, e ali, no meio dos homens, proclamar o Senhor que o salvou. A outra alternativa é que os evangélicos se limitem simplesmente a pregar uma religião diferente da oficial. Há milhões de latino-americanos que ainda não conheceram nem o amor nem o poder transformador de Cristo. Nestas terras nunca houve uma maioria de cristãos. A indiferença de uns e a franca rejeição de outros mostra que “poderíamos dizer que a América latina conhece demasiadamente bem as debilidades dos cristãos, mas ignora Jesus Cristo”.

 

CONCLUSÕES. Sintetizemos a nossa tese:

1. Por motivos históricos, o descuido dos evangélicos no estudo e no cumprimento da responsabilidade social da Igreja e no mundo, impõe uma tomada de consciência.

2. Para cumprir com a responsabilidade social da Igreja, não é necessário nem o abandono da evangelização nem a adoção duma teologia liberal ou não-evangélica. Trata-se simplesmente de levar nossas crenças às suas últimas conseqüências.

3. O processo de evangelização se dá em situações humanas concretas. As estruturas sociais influem sobre a Igreja e sobre os que recebem o Evangelho. Se desconhecermos essa realidade, desfiguraremos o Evangelho e empobreceremos a vida cristã.

4. Os evangélicos precisam encontrar uma forma de encarnar sua fé na realidade latino-americana, relacionando com ela sua mensagem e a aplicação desta mensagem. Sem encarnação, não há evangelização real no sentido bíblico.

5. A falta de encarnação está convertendo o Evangelho numa ideologia de classe média que nem apela nem comunica nada a vastos setores da América Latina.

6. A orientação da vida total como vocação de serviço é um imperativo que resulta da fé e da nova vida em Cristo. A obediência a Cristo deve levar-nos a explorar as múltiplas oportunidades de serviço na sociedade latino-americana.

7. Não é próprio da Igreja adotar uma missão e um programa político. Mas o testemunho de serviço do crente tem indubitáveis dimensões sociais e políticas. A concepção da nossa responsabilidade como serviço evitará cairmos na “tentação católica” de dominar o poder e impor o Evangelho de cima para baixo.

8. A sociedade é mais que uma soma de indivíduos. As mudanças sociais tão urgentes na América Latina virão pela mudança de indivíduos e de estruturas. Em ambas há um desafio ao testemunho evangélico.

9. Os evangélicos não esperam edificar o Reino de Deus sobre a terra nem “cristianizar” a sociedade. Sua esperança é escatológica, mas seu serviço e seu testemunho são o sinal dessa esperança e do domínio de Cristo em suas vidas.

10. Os evangélicos respeitam o Estado e as estruturas dentro das quais vivem, mas não temem a mudança nem ligam o destino da Igreja à subsistência de determinadas formas de organização social e política. Por isso, podem dar uma contribuição decisiva em meio à atual conjuntura revolucionária da América Latina.

 

Samuel Escobar foi missionário entre estudantes universitários na Argentina, Espanha e Canadá. É fundador e ex-presidente da Fraterniadade Teológica Latino-Americana. É presidente das Sociedades Bíblicas Unidas e professor de estudos missionários no Seminário Teológico Batista do Leste, na Filadélfia, EUA, e em Lima, Peru.

Valdir Raul Steuernagel é Doutor em Missiologia pela Escola Luterana de Teologia de Chicago. Conferencista internacional, colunista da Revista Ultimato e autor de vários artigos e livros.

 
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(PROJETO VERDADE 2008)